segunda-feira, 23 de novembro de 2009

1. Felipe era cristão

Felipe era cristão. Se dizia católico, sem esforço nem contradição. Nada de complicar esse título que se nos é imposto, imperativo social, com espiritualismos, místicas orientais, reflexões pseudocientíficas sobre a alma humana. Era católico para pararem de encher o meu saco. Um católico, digo cristão, de merda, ao se levar em conta a parafernalha de obrigações eclesiásticas mínimas que possibilitam a alguém ostentar tal autodenominação, mais ainda católico, cuja especificidade, longe de simplificar a burocracia ritualística, torna os protocolos clericais mais claros, portanto mais passíveis de aferição e conseqüente questionamento e condenação, necessariamente nesta ordem. Qualquer meia dúzia de perguntas sobre sua rotina, ou mesmo um aprofundamento teológico sobre os limites da sua fé, esbarrariam bem rápido num Sei lá, incomodado, soando como Vai se fuder.

Inspirado, defendia sua opção religiosa com um axioma básico “Tudo o que se crê é loucura, só escolhi a minha.”, emendando os protestos de todos os lados, da insustentabilidade desse ponto de vista, do poder da neurociência, da física quântica, das epifanias xamânicas, com a rebatida “minha mãe já dizia que a razão é a imaginação vestida de terno e gravata para impressionar o juízo da gente.” Demora um pouco a entender que esta fecha a conta.

- E tu vai dizer que é eleito, quando acabar o mundo todo mundo se fode e tu, com mais uns gatos pingados, vão cantar louvor nas nuvens. Prum barbado no trono. Anjinho eoescambáu.

- Não digo nada. Só sei que assim é que é. Jesus, Maria e José! Anda na água, ressuscita, se eu rezo atende, se agradeço fica feliz, no resto esqueço e tá tudo certo.

- Não viu “quem somos nós”? É tudo físico-químico, nossa fisiologia decodificada é toda misticismerda jogada de volta pra sarjeta. Condicionamentos, meu caro, enzimas, neurônios e uma pá de bugiganguinha no nosso corpo que é o que sentimos, desejamos, acreditamos, não podemos...

- Bonita história. Prefiro a minha.

Felipe tinha amigos polêmicos, agregados pela magnética teia de franqueza e inteligência que caminhava, ou estancava, onde estivesse e com sua Marina, nada sua, O que me deixa louco por ti, bem mais franca, cavalar e mulher, que dói mais.

Como Bento.

- O foda de viado é que, esteriotipando mesmo, - se não puder generalizar não tem papo nessa porra! - Viado se estabelece com princípios que o tornam uma subraça – Ô, para com isso – visualize: É homem, como homem tem tudo que num presta em ser homem, não dá pra fugir. Zoneia tudo por onde passa, esquece tudo que dizem pra ele que não pode ser esquecido, coça o saco – que o saco é que coça, a gente coça porque coça, se o cara tem saco, o saco vai coçar, o cara vai coçar o saco, saco – e outras paradas que só mulher que tem o dom e o cara nunca cai conseguir que é inato, do tipo fazer várias coisas ao mesmo tempo, ter uma noção de que devo ligar pra minha mãe que ela sente minha falta, cuidar das pessoas que estão ao meu redor e não só de mim mesmo. Taí! O viado tem e não tem tudo isso que vem no pacote e o cara piora o maquinário. Tenta ser mulher e vai e imita o que não presta da raça: tudo machuca, não sabe trocar lâmpada, nem consertar nada, quer carinho, fuxica o tempo todo, morre de inveja de todo mundo, se faz de amigo da mulherada e puxa o tapete na primeira oportunidade. Não dá, junta o que não presta e não dá pra tirar do homem com o que não presta e foi desenvolvido pela mulher, dá uma espécime que só não presta!

- Bento, to pra ver alguém falar merda com tanta eloqüência. Cheio de categoria.

- Então desdiz, flipinho, o que tem de errado no que eu disse.

- Tem de errado é que se for generalizar, toda raça humana dá em subraça, pegando umas particularidades de cada composição. Um ali junta a mãodevaquice judaica do pai com a caradepau cigana da mãe e é uma subraça de canguinha que quer tirar vantagem sempre em cima dos outros, tu é uma junção podre da família do teu pai, cheia de cachaceiro saudosista dum tempo glorioso que nem tão glorioso assim foi, só feliz quando com a cara cheia, misturado com a bicho do mato filha de bicho do mato da tua mãe que tem medo do mundo, cerca ela, tu e toda família de um controle fudido para nada dar errado e, no fim, temos o Bento, o glorioso cachaceiro cagão.

- Vai tomar no cu, Felipe! Má, dá uma força aqui.

- Cruzou na área. Tu conhece o Felipe, né amor? Não tem pra frango. Traz mais uma Chicão, tem cigarro, mô?

- Sempre.

Construir personagens pela premissa de suas esquisitices é menosprezar a perspicácia de quem, além de ler livros na vida, já olhou ao seu redor ou dentro mesmo de si, no emaranhado de se descobrir tão confuso quanto qualquer outro e todos também, e desafia a fragilidade que reside no conceito de normalidade. Contudo, está justamente naquilo que do lado belo, singelo, nos faz únicos, do mesmo modo, do outro nos torna esquisitos, malucos e reprováveis o que dá graça de ser quem você é, torna interessante, repugnante, vale uma história. As diferenciações de Felipe, por assim melhor dizer, serão a amálgama desta trama, desde já escusada de qualquer julgamento preconceituoso de inverossimilhança ou realismo fantástico, visto que ser estranho ou singelo, esquisito e inacreditável, ou ímpar e admirável é constituinte da singularidade de sermos humanos.

Primeiro que jejuava; seu lado cristão católico que se foda o que tu pensa disso.

Segundo que incorporava tudo que lia, pelo menos enquanto lia.

De princípio, quando notou e notaram, foi meio ridículo, se autocensurou, ainda meio cordelista – pode um cabra dessa estirpe,/ mangador das desavenças mundãs,/ num dá de entender,/ se ver tomado da esquisitice/ de reproduzir a tagarelice,/ como se as palavras fossem irmãs,/ de qualquer prosador que esteja a ler/ - , foi censurado Tá dando uma de Guimarães agora, Eita que baixou o Saramago no garoto, Sai desse corpo, Mirisola, que não te pertence, que por sinal, corpo nenhum pertence ao mirisola e seus descalabros. Depois que pensou, E daí, foda-se, é um jeito de falar, como o meu, desaparece com o próximo livro, vira eu, é bom, se não fosse largo o livro no meio.

Terceiro que garantia de pés juntos que já tinha visto um OVNI. Sério, tá bom que fizera parte de grupo de ufologia na escola, com o bando de nerds cabeçudos que ainda acreditam na formação da raça humana a partir de abdução, mas Eu não tenho nenhum boneco do Star Trek, nem vi a continuação-começo do Star Wars, e só vi um disco voador, como é um disco voador, clichê de um prato leitoso translúcido surgir do nada acima, lógico que bem acima, da minha cabeça e zarpar numa velocidade estapafúrdia. Juro que foi só este.

- O Felipe acreditava que era eleito e ia salvar a terra com uma mensagem gravada numa fita cassete, comandante das tropas estelares.

Quarto e quinto e sexto em diante que podem aparecer a qualquer momento.

Enquanto isso Marina tecia os ladrilhos do piso sob seus pés. Força estrondosa de mulher, escondia lá no fundo uma vontade de que toda hora ele lhe dissesse Você está tão linda hoje. Recatada de um fundo inseguro, nunca querendo chamar tanto a atenção assim, mas rejubila com todo olhar que lhe escorrega quando ousa seus decotes e pezinhos descalços.

Essa dificuldade de ser mulher e ter opinião Queria ter um pinto que ia bater na porra da mesa! sendo medida pelas outras como arrogante pelos outros como estúpida pelos outros como A Marina é foda, às vezes, enquanto não adora ser si mesma, cansava.

Enquanto isso Marina navega embalada na delícia que é ouvi-lo falar apesar da arrogância e da teimosia dele, mesmo quando não está certo, está certo em alguma coisa que é mágica no que diz, faz-me mais inteligente enquanto fica lindo seus trejeitos de falar com biquinho e dedo no queixo de quem vai proferir o fim da conversa ou subir mais um degrau e sei que vai mesmo, é quando ele canta, todo existência na articulação do pensamento a veia do pescoço exaltada toda palavra é perfeita, o timbre se agrava, os gestos amplificam seu domínio aumenta, poderoso, Sou apaixonada por esse homem.

- Que foi amor?

- Nada.

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