Felipe ainda era cristão, católico, tem todos os sacramentos, exceto a Ordem e a Unção, graças a Deus. Católico porque a razão é a imaginação a rigor pra impressionar o juízo, mas que jejuava por experimentalismo existencial. E proposta era boa. No período que vai da quarta-feira de cinzas ao Sábado de Aleluia
- Tá vendo, o calendário é pagão, tem a ver com o solstício de verão, ritual milenar dos celtas, ou sei lá quem, muda todo ano e não data a paixão de Cristo. Como é que o cara morre um dia diferente por ano.
- É, né!
- E tu leva isso a sério?
- A idéia é boa, no mais, tanto faz, que me apraz.
o católico que se preza estabelece para si um jejum duplo, que durará a quarentena, redimensionando os 40 dias que Moisés passou no deserto com o povo judeu, quando da fuga do Egito. Uma privação corpórea, desejo gastronômico, esportivo, seja lá qual for, mas relativo ao constituinte físico; outra contenção de âmbito espiritual, algum hábito, desejo ou incapacidade. Experimentava a proposta meio David Blaine de sobrevivência abdicado de coisas que até então nem bem percebia direito como eram fundamentais.
Não compartilhava o quanto podia este protocolo cristão. Não por vergonha da fé, ou orgulho asceta, se arrogando num processo de iluminação cuja compreensão estava aquém dos seus semelhantes, já passara isso pela cabeça, bem como a vergonha, mas já não sabia mais se eram sentimentos legítimos ou inventados pela própria reflexão acerca da sua existência, como uma memória inventada. Guardava a ritualística da privação, as atenções no controle do desejo proibido e do comportamento em suspensão, para melhor apreender os símbolos que emanavam dessa jornada. Lia-se em processo o quanto podia, como se lê um livro no metrô, a saber da analogia ser o metrô a própria balbúrdia circundante da existência cotidiana.
Mas nenhum pudor de transformar em matéria botequinesca os achados transcendentais do jejuar, abstendo-se de revelar a fonte. Tinha dito à Marina. Todo ano faço uma pós strictu sensu de mim mesmo... quarenta dias presenciais e virtuais, full time... artigos nas mesas da Brahma e tcc um dia publico.
Marina não leva a sério o marido sério, e achincalha principalmente suas referências bibliográficas com Foda-se que Descartes de Pompadour da putaqueopariu falou, o cara ta viajando, mas enquanto não compromete o relacionamento e o cuidado com as nossas coisas ele pode se divertir no seu cirquinho soleiltário, como chamava. Não entendia que dificuldade há em perceber que você tem medo de arriscar o emprego pelo teu sonho, ou que largar tudo por uma volta ao mundo mochilão é um sonho que não vai rolar e precisa de tanto argumento para perceber o óbvio, fica viajando em porquê a quântica de Kant não permitiu ao ser humano o ser em si daaah vai à merda e vê se troca a porra da bateria do carro que já cansou de falhar, até a hora que te deixar no meio da estrada, sem celular que tu sempre esquece em casa ou leva descarregado – e não torce o nariz. Rá!
- Eu amo essa desgraçada.
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