segunda-feira, 23 de novembro de 2009

4. André.

- Então eu começo, só de raiva. Pergunto pra ti André, seu cuzão...

- Não é no sentido horário, tem que ser pro Felipe.

- Tá com medo por que veio?

- Vai, então, mas não começa ofendendo.

- Andreole, do fundo do teu coração, você já sentiu vontade de ficar com um cara? Pode ser um beijo, um toque sensual, pegar forte num pinto, chupá-lo, sentar em cima.

Wow, pegou forte, nessa, vai André, se revela, sem pressão, deixa o cara, lembra da regra, só ele fala, depois ele só escuta.

Em cima da mesa um cinzeiro gira pela ponta do dedo de André, que olha o malabarismo. Lógico que acende um cigarro, toma um gole pausado, estalando a língua no final. Na verdade é um bar, tem gente por todo lado conversando todo tipo de assunto e não conversando, todo mundo uma hora ou outra atenta pruma mesa mais agitada, a com mais mulheres bonitas, ou porque o olhar vagou e estacionou em alguém, sem motivo maior, mas o fato é que nessa hora não havia, exceção dos membros da brincadeira, quem estivesse voltado às futuras palavras que sairiam da boca daquele magrelo de camisa moderninha, tipo gola pólo, mas de malha, azul turquesa. Mas não se pode ter essa plena apreensão do ambiente, ainda mais olhando um cinzeiro rodopiar na ponta do dedo, mas não podia olhar pros lados, já seria uma resposta adiantada, procurar bisbilhoteiros, ainda mais no posterior à defesa do achincalhamento público que fez contra a proposta de Marina de emperrar o jogo. Teve a dimensão da enrascada em que se pôs, mas pulou:

- Já tive curiosidade de pegar, já passou pela minha cabeça como seria uma penetração, já me imaginei chupando e beijando um homem e isso já me incomodou muito. Também já pensei muito nisso e exponho os dois principais pontos de vista que abordei. Primeiro que ter prazer com contato de corpos é do ser humano, a gente cresce sendo educado a não poder sentir o tal prazer por alguém do mesmo sexo e, consequentemente, o desejo pelo corpo do mesmo sexo, mas a curiosidade não impede nossa mente de divagar, e experimentar em hipótese esse contato. Segundo que há uma força cultural da opção heterossexual e me rendo a ela. Fiz consciente a opção de evitar o desejo e o prazer corporal com homens, o que me é suficiente para a autoafirmação de que não sou gay.

- Ufa. Tenho muito mais pra dizer sobre isso, mas foi suficiente, eu acho. Mesa?

- Começa pelo Bento, seguindo a lógica de ter começado pela Ma perguntando pro André. Agora tu só ouve, Dedo, até porque parece que é o que tu mais quer.

- Bem, partindo do princípio de que, apesar de toda maracutaia performática que armamos aqui, estamos numa mesa de bar, que tem seus pressupostos milenares, dentre os quais, mias vale perder o amigo que a piada, a princípio fica claro que tu é uma tremenda duma bichona!

- Aí...

- SHhhhhi! Quieto, mocinha, lembre das regras do jogo. Falar que nunca te imaginei abocanhando um mastruço, mas como tu tocaste no assunto, até que não fica tão estranho em ti.

- Porra, o jogo é só pra sacanshiiiiiiii

- Guenta que tu vais ter tempo de sobra pra desforra.

- Isso mesmo, Má, agora é comigo, garanhonha, ui! Esse papo milenar de que os antepassados tinham prazer pelo cu, que pra criancinha pau e xota dá da mesma é desculpa filosófica, intelectualóide pra uma vontade intrínseca, muito forte, descontrolada de enjaular uma jibóia, meu camarada. Você até nem tem muito jeito de abaitolado, só é meio sensível demais, não sabe jogar bola, lê muito, essas coisas que afeminam o espírito do cabra. E é isso que eu tenho a dizer.

- Bom, agora é a vez da Carmem.

- Antes de mais nada, fica aqui estabelecido que quem foi bem ouvido e teve seu direito de falar respeitado tem por obrigação agir com a mesma gentileza e serenidade quando estiver ouvindo.

- Não tenho medo de me sacanearem, não, Carmola, sabendo que é pra mim que você se dirige. Na minha vez eu agüento o tranco.

- É, Bento, a diferença é que a tua opinião fanfarrona perdeu credibilidade e uma coisa é a ferida de uma brincadeira, com o possível fundo de verdade que fica a critério do servir ou não do capuz, outra coisa é ouvir uma opinião séria e sincera, argumentada e bem defendida que revele alguma coisa vexatória. Esta faz chorar.

- Bom, mas meu papo agora é contigo, André. Na verdade não vejo nada de relevante na tua resposta, exceto a coragem de revelar uma capacidade de mergulho nos próprios sentimentos, à revelia do preconceito ou junto com ele. Também já pensei sobre isso e cheguei à mesma conclusão, de que ser hétero, homo ou bissexual é uma escolha inconsciente de estar ou não adequado ao padrão regido como normalidade ao nosso redor. É possível que o natural do nosso corpo seja ter prazer com qualquer corpo e o desprezo, a repulsa são aprendidas. E digo mais, dentro desse diagnóstico, acredito que você é mais hétero que o Bento, cuja opção sexual é inconsciente e todo mundo sabe que o inconsciente prega peças de acordo com a situação em que nos vemos.

- Antes de passar a palavra, só acrescentar o quanto eu amo muito tudo isso. Forcei a barra pra gerar essa magia que construímos, mas sempre vale a pena. Amo vocês. Sua vez Felipe.

- Peraí, fui citado no discurso da digníssima dama, e não foi dito nada contra réplica de palpiteiros. Até onde eu saiba só quem não pode mais replicar é o réu.

- Para de viadagem, Bento, se ficou ofendidinho é porque a carapuça serviu.

- Ui.

- É, Bento, foi mal, mas senão vai virar zona. Agora é minha vez. Concordo com a Carmem que não tem muito mais pra se dizer. Se a proposta é mostrar pro cara alguma coisa que ele não se perceba, fica difícil. Você não parece viado, tem um jeitim sim, se isso te preocupa. Confesso que já pensei e senti as mesmas coisas que você falou, com a diferença que fui pro front, baby, chupei pra caralho, rá. Brincadeira. Pode ser que haja alguma configuração do hardware de alguns corpos humanos machos que tenham uma predisposição ao prazer com pintos, barbas e cus peludos. Pode ser que esta mesma configuração esteja ligada a outros talentos e o cara vira artista ou um baita administrador de empresas e nunca esfola o toba. O que é do corpo ainda é enigma, o que é da cultura é fato, no Brasil, ocidente capitalista, século XXI, urbano, ser viado é errado e esta força condiciona os acreditares da alma, manipula a química do corpo e o caralho a quatro. O que nos dá é pra fazer esse percurso do André ou esperar o momento certo de dar a bunda, com o Bento.

- Lindo, amor. Minha vez. Eu, como mulher...

- Macho, diga-se de passagem.

- Obrigada pela interferência, Disgrento, justa para o que estava pensando em falar. Já beijei outra mulher, todo mundo aqui conhece essa história, já lambi uma xoxota e até gozei, mas ainda tenho nojo, quando vejo uma mulher linda não quero chupá-la nem beijá-la e nem acho que esse papo que a mulher conhece melhor o corpo da outro então que dá mais prazer..., é furado. Gosto e gozo em pintos...

- Opa, eu só tenho um.

- Você entendeu amor, no seu pinto. Para a gente não é mais fácil essa transgressão, como pode parecer. Nós temos uma relação conflituosa com o prazer, a infância inteira proibida, a adolescência da descoberta ainda com culpa que atrapalha o gozo com outra pessoa qualquer, seja bom ou mal de cama, viu rapazes.

- Às vezes é mais gostoso com os cabaços, que estão mais tensos que a gente e acaba rolando uma cooperação, uma empatia.

- Isso, Ca. E pra ti, André, quando conhecemos caras sensíveis, que têm uma feminilidade suave no gestual, no uso das palavras, sei lá, encanta. Não vai sair falando fininho que aí brocha qualquer um. A prova é que sou casada com a bichona maravilhosa do meu marido. Rá. E tenho dito.

3. Carmem e a epifania.

Carmem acha Felipe um tesão e quer um daqueles pra ela todinho, ama Marina e não é de sacanagem. Quando junta todo mundo no bar, na casa dela, dele, de quem for tem sempre uma hora que fica bom demais. Dá-se um jeito de ser diferente e embriagar aquela sensação de estar vivendo pela primeira vez e se desse pra filmar isso, gente!

Teve uma vez que Carmem forçou, achou que tava demorando a epifania costumeira. Lançou um desafio a si e ao todo de quem estava no bar aquela noite:

- Vamos parar de pouca coisa que hoje eu quero muito. Alguém me invente uma catarse agora!

Riram, nem ligaram, encheram copos, ela séria.

- Vou propor – fala lento esse Felipe, cheio de domínio, parece que sabia da aposta - um jogo de personalidade, vamos nos expor, galera, tipo terapia em grupo couching, concha, e o caralho a quatro.

- Lá vem o que não tá bebendo se aproveitar da embriaguez dos que o cercam para garantir muita zoação pro nosso lado. Mas é sempre divertido, diz aí Carmem?

- O flipinho, nosso psicopatinha de estimação constrói pontes movediças nas nossas noites e faz todo mundo voltar pra casa com pulguinhas atrás da orelha.

- Taí, mitcha, o flipo é um pulguento, a gente fica colado no cara, troca idéias e as pulgas vão pulando pra trás da nossa orelha e te garanto que tenho uma que já virou um hipopótamo, daquela fita de eu querer ser ousado, me comprometer nas loucuras que a galera agita e quando o ziui aperta digo que to sem grana ou trampo no dia seguinte. Essa parada de encarar que não tenho culhão mesmo pra bancar o que todo mundo encara numa boa me deixa fodido.

- Pô bentz, menos que isso, bro. Difícil é querer dar conta do mundo e se medir naquilo que te falta, mas que tu é cuzão, isso é.

- Valeu, fiodapuntz. Diz aí que tu tem em mente, Aleister Crowley do doce.

- A parada é a seguinte, a gente se conhece pacas, por bem ou por mal falamos uns dos outros frente a frente ou pelas costas, analisando jeitos de ser, manias insuportáveis e, pasmem, até virtudes. Então que faremos uma roda transxamânica-psiconírica-hardcore de autoexposição do que achamos que somos à crítica e modelação do que os outros acham que somos à nossa revelia de boca calada guenta o tranco sem vaselina no cu.

- Caraio, dá pra explicar sem viajar, filipeta?

- Vai lá, Carmem, Bento, Má, mo, André, tá bom, seria bom com o Ro, Aninha e Cláudio, cabe qualquer um, mas vai lá, só nós. Fazemos uma roda, já tá feita, na verdade, um começa lançando uma pergunta pro do lado de cunho profundo, fazendo o cara refletir e ser levado a expor, na resposta, algo que o constitua, ou que pelo menos ele acredite que o constitua. O cara responde, todo mundo prestando atenção, ninguém fala, só ouve, quando acabar, por ordem os outros dizem se o que foi dito bate ou não com o que vêm dele, não vale réplica, boca calada, guenta o tranco, pode beber fumar olhar pro céu bater na mesa, mas não pode retrucar. Todo mundo falou, passa a bola pro próximo. Tem que ser franco, sem franguice. Se ficou magoadinho, melhor, que vai se encher de veneno pra quando tiver que dar um feedback, vamos nos agredir permitidos. Caralho, vai ser muito louco. Aí?

- Topo – topo – topo – vai – Zé, traz duas brahmas e um maço de marlboro lights.

- Peraí, que se vamos falar de intimidades seria melhor irmos pra casa de alguém. Acho lindo esse papo de desabrochar, revelar seus segredos, nos descobrir e pá, mas nem to afins de todo bar saber da minha vida. Com vocês não tenho frescura, mas acho desnecessária essa exposição.

- A Mari tem razão, mas, pra varia, brocha a galera. Tu é chatona!

- André, tu que é o mais cheio de melindres, de artimanha, tu acha qualquer um aqui não vai te esfolar com tuas pieguices?

- Mas quer saber, Má, eu encaro que hoje é o dia do fuckoffanddie!

- Então, Bento, Carmita, Má, André, no meio do mundo, quem tiver ouvidos que ouça?

- Vai, então, não vou ser a chata da parada.

- Tu é a chata da parada, amor, e a gente te ama por isso!

2. Felipe ainda era cristão.

Felipe ainda era cristão, católico, tem todos os sacramentos, exceto a Ordem e a Unção, graças a Deus. Católico porque a razão é a imaginação a rigor pra impressionar o juízo, mas que jejuava por experimentalismo existencial. E proposta era boa. No período que vai da quarta-feira de cinzas ao Sábado de Aleluia

- Tá vendo, o calendário é pagão, tem a ver com o solstício de verão, ritual milenar dos celtas, ou sei lá quem, muda todo ano e não data a paixão de Cristo. Como é que o cara morre um dia diferente por ano.

- É, né!

- E tu leva isso a sério?

- A idéia é boa, no mais, tanto faz, que me apraz.

o católico que se preza estabelece para si um jejum duplo, que durará a quarentena, redimensionando os 40 dias que Moisés passou no deserto com o povo judeu, quando da fuga do Egito. Uma privação corpórea, desejo gastronômico, esportivo, seja lá qual for, mas relativo ao constituinte físico; outra contenção de âmbito espiritual, algum hábito, desejo ou incapacidade. Experimentava a proposta meio David Blaine de sobrevivência abdicado de coisas que até então nem bem percebia direito como eram fundamentais.

Não compartilhava o quanto podia este protocolo cristão. Não por vergonha da fé, ou orgulho asceta, se arrogando num processo de iluminação cuja compreensão estava aquém dos seus semelhantes, já passara isso pela cabeça, bem como a vergonha, mas já não sabia mais se eram sentimentos legítimos ou inventados pela própria reflexão acerca da sua existência, como uma memória inventada. Guardava a ritualística da privação, as atenções no controle do desejo proibido e do comportamento em suspensão, para melhor apreender os símbolos que emanavam dessa jornada. Lia-se em processo o quanto podia, como se lê um livro no metrô, a saber da analogia ser o metrô a própria balbúrdia circundante da existência cotidiana.

Mas nenhum pudor de transformar em matéria botequinesca os achados transcendentais do jejuar, abstendo-se de revelar a fonte. Tinha dito à Marina. Todo ano faço uma pós strictu sensu de mim mesmo... quarenta dias presenciais e virtuais, full time... artigos nas mesas da Brahma e tcc um dia publico.

Marina não leva a sério o marido sério, e achincalha principalmente suas referências bibliográficas com Foda-se que Descartes de Pompadour da putaqueopariu falou, o cara ta viajando, mas enquanto não compromete o relacionamento e o cuidado com as nossas coisas ele pode se divertir no seu cirquinho soleiltário, como chamava. Não entendia que dificuldade há em perceber que você tem medo de arriscar o emprego pelo teu sonho, ou que largar tudo por uma volta ao mundo mochilão é um sonho que não vai rolar e precisa de tanto argumento para perceber o óbvio, fica viajando em porquê a quântica de Kant não permitiu ao ser humano o ser em si daaah vai à merda e vê se troca a porra da bateria do carro que já cansou de falhar, até a hora que te deixar no meio da estrada, sem celular que tu sempre esquece em casa ou leva descarregado – e não torce o nariz. Rá!

- Eu amo essa desgraçada.

1. Felipe era cristão

Felipe era cristão. Se dizia católico, sem esforço nem contradição. Nada de complicar esse título que se nos é imposto, imperativo social, com espiritualismos, místicas orientais, reflexões pseudocientíficas sobre a alma humana. Era católico para pararem de encher o meu saco. Um católico, digo cristão, de merda, ao se levar em conta a parafernalha de obrigações eclesiásticas mínimas que possibilitam a alguém ostentar tal autodenominação, mais ainda católico, cuja especificidade, longe de simplificar a burocracia ritualística, torna os protocolos clericais mais claros, portanto mais passíveis de aferição e conseqüente questionamento e condenação, necessariamente nesta ordem. Qualquer meia dúzia de perguntas sobre sua rotina, ou mesmo um aprofundamento teológico sobre os limites da sua fé, esbarrariam bem rápido num Sei lá, incomodado, soando como Vai se fuder.

Inspirado, defendia sua opção religiosa com um axioma básico “Tudo o que se crê é loucura, só escolhi a minha.”, emendando os protestos de todos os lados, da insustentabilidade desse ponto de vista, do poder da neurociência, da física quântica, das epifanias xamânicas, com a rebatida “minha mãe já dizia que a razão é a imaginação vestida de terno e gravata para impressionar o juízo da gente.” Demora um pouco a entender que esta fecha a conta.

- E tu vai dizer que é eleito, quando acabar o mundo todo mundo se fode e tu, com mais uns gatos pingados, vão cantar louvor nas nuvens. Prum barbado no trono. Anjinho eoescambáu.

- Não digo nada. Só sei que assim é que é. Jesus, Maria e José! Anda na água, ressuscita, se eu rezo atende, se agradeço fica feliz, no resto esqueço e tá tudo certo.

- Não viu “quem somos nós”? É tudo físico-químico, nossa fisiologia decodificada é toda misticismerda jogada de volta pra sarjeta. Condicionamentos, meu caro, enzimas, neurônios e uma pá de bugiganguinha no nosso corpo que é o que sentimos, desejamos, acreditamos, não podemos...

- Bonita história. Prefiro a minha.

Felipe tinha amigos polêmicos, agregados pela magnética teia de franqueza e inteligência que caminhava, ou estancava, onde estivesse e com sua Marina, nada sua, O que me deixa louco por ti, bem mais franca, cavalar e mulher, que dói mais.

Como Bento.

- O foda de viado é que, esteriotipando mesmo, - se não puder generalizar não tem papo nessa porra! - Viado se estabelece com princípios que o tornam uma subraça – Ô, para com isso – visualize: É homem, como homem tem tudo que num presta em ser homem, não dá pra fugir. Zoneia tudo por onde passa, esquece tudo que dizem pra ele que não pode ser esquecido, coça o saco – que o saco é que coça, a gente coça porque coça, se o cara tem saco, o saco vai coçar, o cara vai coçar o saco, saco – e outras paradas que só mulher que tem o dom e o cara nunca cai conseguir que é inato, do tipo fazer várias coisas ao mesmo tempo, ter uma noção de que devo ligar pra minha mãe que ela sente minha falta, cuidar das pessoas que estão ao meu redor e não só de mim mesmo. Taí! O viado tem e não tem tudo isso que vem no pacote e o cara piora o maquinário. Tenta ser mulher e vai e imita o que não presta da raça: tudo machuca, não sabe trocar lâmpada, nem consertar nada, quer carinho, fuxica o tempo todo, morre de inveja de todo mundo, se faz de amigo da mulherada e puxa o tapete na primeira oportunidade. Não dá, junta o que não presta e não dá pra tirar do homem com o que não presta e foi desenvolvido pela mulher, dá uma espécime que só não presta!

- Bento, to pra ver alguém falar merda com tanta eloqüência. Cheio de categoria.

- Então desdiz, flipinho, o que tem de errado no que eu disse.

- Tem de errado é que se for generalizar, toda raça humana dá em subraça, pegando umas particularidades de cada composição. Um ali junta a mãodevaquice judaica do pai com a caradepau cigana da mãe e é uma subraça de canguinha que quer tirar vantagem sempre em cima dos outros, tu é uma junção podre da família do teu pai, cheia de cachaceiro saudosista dum tempo glorioso que nem tão glorioso assim foi, só feliz quando com a cara cheia, misturado com a bicho do mato filha de bicho do mato da tua mãe que tem medo do mundo, cerca ela, tu e toda família de um controle fudido para nada dar errado e, no fim, temos o Bento, o glorioso cachaceiro cagão.

- Vai tomar no cu, Felipe! Má, dá uma força aqui.

- Cruzou na área. Tu conhece o Felipe, né amor? Não tem pra frango. Traz mais uma Chicão, tem cigarro, mô?

- Sempre.

Construir personagens pela premissa de suas esquisitices é menosprezar a perspicácia de quem, além de ler livros na vida, já olhou ao seu redor ou dentro mesmo de si, no emaranhado de se descobrir tão confuso quanto qualquer outro e todos também, e desafia a fragilidade que reside no conceito de normalidade. Contudo, está justamente naquilo que do lado belo, singelo, nos faz únicos, do mesmo modo, do outro nos torna esquisitos, malucos e reprováveis o que dá graça de ser quem você é, torna interessante, repugnante, vale uma história. As diferenciações de Felipe, por assim melhor dizer, serão a amálgama desta trama, desde já escusada de qualquer julgamento preconceituoso de inverossimilhança ou realismo fantástico, visto que ser estranho ou singelo, esquisito e inacreditável, ou ímpar e admirável é constituinte da singularidade de sermos humanos.

Primeiro que jejuava; seu lado cristão católico que se foda o que tu pensa disso.

Segundo que incorporava tudo que lia, pelo menos enquanto lia.

De princípio, quando notou e notaram, foi meio ridículo, se autocensurou, ainda meio cordelista – pode um cabra dessa estirpe,/ mangador das desavenças mundãs,/ num dá de entender,/ se ver tomado da esquisitice/ de reproduzir a tagarelice,/ como se as palavras fossem irmãs,/ de qualquer prosador que esteja a ler/ - , foi censurado Tá dando uma de Guimarães agora, Eita que baixou o Saramago no garoto, Sai desse corpo, Mirisola, que não te pertence, que por sinal, corpo nenhum pertence ao mirisola e seus descalabros. Depois que pensou, E daí, foda-se, é um jeito de falar, como o meu, desaparece com o próximo livro, vira eu, é bom, se não fosse largo o livro no meio.

Terceiro que garantia de pés juntos que já tinha visto um OVNI. Sério, tá bom que fizera parte de grupo de ufologia na escola, com o bando de nerds cabeçudos que ainda acreditam na formação da raça humana a partir de abdução, mas Eu não tenho nenhum boneco do Star Trek, nem vi a continuação-começo do Star Wars, e só vi um disco voador, como é um disco voador, clichê de um prato leitoso translúcido surgir do nada acima, lógico que bem acima, da minha cabeça e zarpar numa velocidade estapafúrdia. Juro que foi só este.

- O Felipe acreditava que era eleito e ia salvar a terra com uma mensagem gravada numa fita cassete, comandante das tropas estelares.

Quarto e quinto e sexto em diante que podem aparecer a qualquer momento.

Enquanto isso Marina tecia os ladrilhos do piso sob seus pés. Força estrondosa de mulher, escondia lá no fundo uma vontade de que toda hora ele lhe dissesse Você está tão linda hoje. Recatada de um fundo inseguro, nunca querendo chamar tanto a atenção assim, mas rejubila com todo olhar que lhe escorrega quando ousa seus decotes e pezinhos descalços.

Essa dificuldade de ser mulher e ter opinião Queria ter um pinto que ia bater na porra da mesa! sendo medida pelas outras como arrogante pelos outros como estúpida pelos outros como A Marina é foda, às vezes, enquanto não adora ser si mesma, cansava.

Enquanto isso Marina navega embalada na delícia que é ouvi-lo falar apesar da arrogância e da teimosia dele, mesmo quando não está certo, está certo em alguma coisa que é mágica no que diz, faz-me mais inteligente enquanto fica lindo seus trejeitos de falar com biquinho e dedo no queixo de quem vai proferir o fim da conversa ou subir mais um degrau e sei que vai mesmo, é quando ele canta, todo existência na articulação do pensamento a veia do pescoço exaltada toda palavra é perfeita, o timbre se agrava, os gestos amplificam seu domínio aumenta, poderoso, Sou apaixonada por esse homem.

- Que foi amor?

- Nada.