Carmem acha Felipe um tesão e quer um daqueles pra ela todinho, ama Marina e não é de sacanagem. Quando junta todo mundo no bar, na casa dela, dele, de quem for tem sempre uma hora que fica bom demais. Dá-se um jeito de ser diferente e embriagar aquela sensação de estar vivendo pela primeira vez e se desse pra filmar isso, gente!
Teve uma vez que Carmem forçou, achou que tava demorando a epifania costumeira. Lançou um desafio a si e ao todo de quem estava no bar aquela noite:
- Vamos parar de pouca coisa que hoje eu quero muito. Alguém me invente uma catarse agora!
Riram, nem ligaram, encheram copos, ela séria.
- Vou propor – fala lento esse Felipe, cheio de domínio, parece que sabia da aposta - um jogo de personalidade, vamos nos expor, galera, tipo terapia em grupo couching, concha, e o caralho a quatro.
- Lá vem o que não tá bebendo se aproveitar da embriaguez dos que o cercam para garantir muita zoação pro nosso lado. Mas é sempre divertido, diz aí Carmem?
- O flipinho, nosso psicopatinha de estimação constrói pontes movediças nas nossas noites e faz todo mundo voltar pra casa com pulguinhas atrás da orelha.
- Taí, mitcha, o flipo é um pulguento, a gente fica colado no cara, troca idéias e as pulgas vão pulando pra trás da nossa orelha e te garanto que tenho uma que já virou um hipopótamo, daquela fita de eu querer ser ousado, me comprometer nas loucuras que a galera agita e quando o ziui aperta digo que to sem grana ou trampo no dia seguinte. Essa parada de encarar que não tenho culhão mesmo pra bancar o que todo mundo encara numa boa me deixa fodido.
- Pô bentz, menos que isso, bro. Difícil é querer dar conta do mundo e se medir naquilo que te falta, mas que tu é cuzão, isso é.
- Valeu, fiodapuntz. Diz aí que tu tem em mente, Aleister Crowley do doce.
- A parada é a seguinte, a gente se conhece pacas, por bem ou por mal falamos uns dos outros frente a frente ou pelas costas, analisando jeitos de ser, manias insuportáveis e, pasmem, até virtudes. Então que faremos uma roda transxamânica-psiconírica-hardcore de autoexposição do que achamos que somos à crítica e modelação do que os outros acham que somos à nossa revelia de boca calada guenta o tranco sem vaselina no cu.
- Caraio, dá pra explicar sem viajar, filipeta?
- Vai lá, Carmem, Bento, Má, mo, André, tá bom, seria bom com o Ro, Aninha e Cláudio, cabe qualquer um, mas vai lá, só nós. Fazemos uma roda, já tá feita, na verdade, um começa lançando uma pergunta pro do lado de cunho profundo, fazendo o cara refletir e ser levado a expor, na resposta, algo que o constitua, ou que pelo menos ele acredite que o constitua. O cara responde, todo mundo prestando atenção, ninguém fala, só ouve, quando acabar, por ordem os outros dizem se o que foi dito bate ou não com o que vêm dele, não vale réplica, boca calada, guenta o tranco, pode beber fumar olhar pro céu bater na mesa, mas não pode retrucar. Todo mundo falou, passa a bola pro próximo. Tem que ser franco, sem franguice. Se ficou magoadinho, melhor, que vai se encher de veneno pra quando tiver que dar um feedback, vamos nos agredir permitidos. Caralho, vai ser muito louco. Aí?
- Topo – topo – topo – vai – Zé, traz duas brahmas e um maço de marlboro lights.
- Peraí, que se vamos falar de intimidades seria melhor irmos pra casa de alguém. Acho lindo esse papo de desabrochar, revelar seus segredos, nos descobrir e pá, mas nem to afins de todo bar saber da minha vida. Com vocês não tenho frescura, mas acho desnecessária essa exposição.
- A Mari tem razão, mas, pra varia, brocha a galera. Tu é chatona!
- André, tu que é o mais cheio de melindres, de artimanha, tu acha qualquer um aqui não vai te esfolar com tuas pieguices?
- Mas quer saber, Má, eu encaro que hoje é o dia do fuckoffanddie!
- Então, Bento, Carmita, Má, André, no meio do mundo, quem tiver ouvidos que ouça?
- Vai, então, não vou ser a chata da parada.
- Tu é a chata da parada, amor, e a gente te ama por isso!
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